sábado, 2 de dezembro de 2017

SENTIMENTOS

"Este texto foi escrito em 25/01/2007, portanto há mais de 10 anos, e divulgado como depoimento na reunião de familiares de adictos que foram internados naquela semana numa clínica especializada em atendimento psiquiátrico onde existe uma ala destinada ao tratamento e recuperação de dependentes químicos. Esse meu testemunho causou um impacto psicológico muito forte nos familiares, com muita emoção. A partir daí, iniciou-se o meu despertar de consciência sobre o meu estado de Codependência".


Pensar nos meus sentimentos em relação a esta jornada, significa reviver emoções fortes e concluir que hoje enxergo tudo sob uma visão diferente daquela de então. Constatei que não trago nenhum sentimento de arrependimento do que fiz ou deixei de fazer; que embora a minha ação possa não ter sido a mais apropriada, foi a que a minha consciência me indicou como sendo a melhor no momento. A experiência pautada no “melhor possível” garantiu-me atravessar com serenidade muitos momentos difíceis e penso que isto contribuiu para ajudar o meu filho, fazendo que ele sentisse a segurança de não estar sozinho.

Isso, porém não me livrou das aflições, das ansiedades, dos sofrimentos. Na maioria das vezes o sentimento de impotência é o que predomina. Penso que não posso fazer nada, que não há o que fazer, daí vem a aflição e o desespero.


Acho que o pior efeito que já senti na convivência com a doença do meu filho foi a  sensação de traição, de deslealdade. A mentira e a desfaçatez predominaram muitas e repetidas vezes, provocando-me uma ansiedade dolorosa impossível de ser descrita. Nada poderia ser mais danoso para o meu íntimo do que sentir que eu não tinha a mínima importância para o meu filho, que ele era capaz de me ignorar de uma forma tão cruel; que poderia simplesmente sair de casa dizendo que iria sair, que voltaria a tal hora, mas que sumiria e passaria dias sem aparecer, sem nem dar alguma notícia. Que poderia trocar o nosso convívio fraterno e o conforto de nossa casa, uma cama limpa e o aconchego do lar, por algo que eu não sabia bem o que era, que não conseguia entender, mas que incluía a companhia de pessoas marginalizadas, de maus-hábitos, visadas pela polícia, sem higiene, e casas que mais se comparavam a pocilgas, sujas e malcheirosas, onde sequer encontrava uma cama digna para repousar. Algumas vezes, nesses e em outras situações de crise, fui destratado, recebi ofensas e ameaças, fui humilhado, mas nunca agressões físicas.

Falando de sentimentos, é impossível descrever como eu me senti ao passar por todas essas situações, mas fazendo um esforço de imaginação, eu poderia comparar como se eu estivesse sendo esfaqueado por repetidas vezes, e o alvo não fosse o meu corpo, mas sim o meu espírito. A dor não é física, mas espiritual, e por isso não existe remédio que poderia me ajudar, a não ser a centelha divina que todos nós trazemos na profundidade de nosso ser.

Eu compreendo que na verdade não foi o meu filho que me causou tantos danos, que na verdade ele me ama, e que nunca quis me prejudicar ou prejudicar-se. A doença, sim. Esta é avassaladora, e a causadora de todos os males. E conhecendo-a e unindo-nos, com a benção de Deus poderemos controlá-la e sair vitoriosos desta nossa jornada.

Só por hoje.


domingo, 26 de novembro de 2017

A ADICÇÃO E A CODEPENDÊNCIA

Afinal, o que é um adicto?

Adicto é simplesmente uma pessoa cuja vida é controlada pelas drogas

O que é um codependente?

codependente acredita que sua felicidade depende da pessoa que ele tenta ajudar, e assim se torna emocionalmente dependente dele, sendo excessivamente permissivo, tolerante e compreensivo com os abusos do outro, mesmo que este seja excessivamente controlador, perfeccionista e autoritário.


"Adictos tornam-se inesquecíveis pelo trabalho que nos dão, ou pelo afeto e orientação que pretendíamos lhes dar e não podemos, por isso, nos frustramos tanto.

Um adicto na ativa atuando em nossas vidas é algo instigante e desestabilizador. Lidar com ele, realmente é uma loucura.

Adictos são complicados pelo frágil e descontrolado aspecto emocional e mental, mas mesmo assim, não conseguimos nos desvencilhar deles pelo simples fato de amá-los desmedidamente.

Ao aproximarmos-nos de um adicto, sempre correremos o risco de embarcarmos em uma aventura altamente perigosa e esgotante, onde seremos sugados, sem piedade, por um rodamoinho de emoções, se decidirmos acompanhá-los mais de perto.

O que de fato nunca poderemos negar é que sempre esbarraremos em adictos andando livremente por aí! Podemos lidar anos a fio com um adicto e só mais tarde percebermos o vasto estrago que ele faz há um bom tempo em suas vidas e nas nossas também..."

- Darléa Zacharias

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

SER PAI!




Texto de 25/03/2004, quando a adicção já estava em fase ativa e aguda, e revela o grau da codependência ainda não reconhecida como tal.
Muito provavelmente isto nunca foi lido pelo destinatário direto.

Meu filho;

Já está fazendo quase um mês que você completou 21 anos! Para eu, que sou seu pai, trata-se de algo meio assustador. Afinal, há pouco tempo eu também era um adolescente, cheio de expectativas e projetos, alem de sentir também aquele friozinho de medo que dava ao pensar que eu tinha que, em pouquíssimo espaço de tempo, assumir minha própria vida e ser eu mesmo, prover meu próprio sustento e decidir eu mesmo os meus passos.
Existiram outras situações na minha vida que provocaram a mesma sensação de expectativa e de um certo medo, como quando eu me casei e também quando você nasceu, há 21 anos. Sempre bate no pensamento e no coração o peso da responsabilidade que a gente percebe que está assumindo nestes momentos, coisa que sabemos que não tem escapatória, é com a gente mesmo e ninguém vai assumir nada disso depois em nosso lugar. Pelo menos enquanto a gente estiver vivo.
No meu caso específico, e sendo ainda mais conciso, quando você nasceu, eu senti uma emoção completamente diferente, pois afinal um novo ser, pequenino, frágil, indefeso e totalmente dependente dos meus cuidados e da minha responsabilidade, estava sendo colocado nos meus braços. “Agora é com você! Tome conta e depois eu voltarei para saber o que você fez dele!”. Lembra-se da parábola dos talentos?
Afinal quem era esse ser? Logo após a confirmação da gravidez, disse eu certa vez em casa à sua mãe: “Já não somos mais dois, aqui...” Embora sabedor de que já era uma personalidade pré-existente e muito provavelmente já conhecido de outras lides terrestres, brotou na cabeça e no coração a indefinível insegurança de quem recebe um desconhecido, e neste caso, sem nem mesmo poder conversar, trocar algumas impressões e assim procurar dar início a um relacionamento que já sabia previamente que iria ser de longa duração. Eu sentia uma estranha emoção, mistura de alegria, amor, insegurança, esperança, medo. Será que eu tinha capacidade para encarar essa empreitada? Certamente que sim, senão essa situação não seria colocada na minha vida.
Tudo isso é realmente uma coisa de Deus, não pode existir outra explicação senão como sendo essas as expressões máximas da manifestação do amor de Deus no planeta Terra: o amor paternal e o maternal. Só assim poderemos nós, na nossa ignorância, perceber a magnitude da referencia bíblica de que fomos criados à Sua imagem e semelhança.
Bem, estou falando tudo isso apenas para que você perceba um pouquinho o que pode significar essa missão: ser pai. Quero que você conheça um pouquinho das emoções que sinto, tanto em relação às expectativas, quanto às alegrias, às tristezas.


...

segunda-feira, 13 de março de 2017

"SEGURE NO PÉ DA GOIABEIRA!"



Este texto foi escrito em 06/10/2014, portanto há quase 3 anos, bem antes da criação deste blog. Eu tinha acabado de estar na casa do meu filho, quando na conversa surgiu a situação que fez com que eu posteriormente escrevesse isso. 


Lembrei-me hoje desse dito do meu pai. Um homem que foi árduo trabalhador, que tudo fez para cumprir a sua obrigação de esposo, de pai, de avô e de Espírito em evolução que ainda é. "SEGURE NO PÉ DA GOIABEIRA!" - Ele dizia isso para si mesmo e para a minha mãe, quando via que a situação estava instável e problemática. Eu, na minha condição de criança, ou de então no máximo de adolescente, não entendia bem o que ele queria dizer com isso.

Hoje, quando você me falou “porém, minha vida ficou muito mais apertada”, não entendi muito bem e percebi um certo sinal de angústia no que disse, e a minha vontade foi de responder: “Segure no pé da goiabeira”. Na hora optei por não dizer nada, como tenho procurado fazer ultimamente, mas agora vamos lá.

Nós todos, de maneira geral, e cada um de nós da família no sentido amplo, estamos passando por uma grande tribulação, própria dos períodos de grande transição. Os tempos são chegados e cada qual é chamado às suas próprias razões. O que me faz lembrar e aderir ao sábio conselho do meu velho pai.

Para ilustrar qual o verdadeiro significado que pude perceber do que recebi do velho com isso, incluo aqui uma historinha que fecha o assunto na sua total elucidação.
Conta-se que abnegado servidor da Mediunidade queixou-se ao Mentor dedicado, sobre as lutas que vinha travando, encontrando-se quase sem forças para prosseguir.
As dificuldades sitiavam-no, em forma de familiares exigentes, amigos ingratos, conhecidos descaridosos para com ele, fragilidade na saúde, interferências espirituais negativas. Após relacionar os fortes impedimentos, rogou ao Benfeitor que o orientasse no procedimento a manter.
O amigo, por sua vez, expôs-lhe: “Um anjo ofereceu a um pupilo querido que aprendia com ele santificação, em treinamento para vir à Terra, um guarda-chuva; tempos depois doou-lhe galochas de borracha; mais tarde ofertou-lhe um chapéu e uma capa impermeáveis, sem dar-lhe maiores explicações. Repentinamente, começou a chover torrencialmente e o candidato à elevação gritou: ‘Anjo bom, chove! Que faço?’ O sábio orientador respondeu-lhe, sem delongas: ‘Use o material que lhe dei’”
Você tem recebido a luz do Espiritismo e o apoio do Mundo Espiritual, não como prêmio à inutilidade, senão como recurso de alto valor para os momentos difíceis que sempre chegam. Agora desaba a tempestade. Use esse tesouros ocultos que vem guardando e não tema. Enfrente as borrascas que maltratam, porém, passam... O espírita consciente, que não se apoia em mecanismos desculpistas, enfrenta as vibrações de teor baixo, armado do escudo da caridade e protegido pela superior inspiração que haure na prece, parte para o serviço no lugar em que se faz necessário, onde dele precisam...“

Sua vida ficou muito mais apertada, filho? Lembre-se de seu avô: segure no pé da goiabeira!

Com carinho
Seu pai


06/10/2014