"Este texto foi escrito em 25/01/2007, portanto há mais de 10 anos, e divulgado como depoimento na reunião de familiares de adictos que foram internados naquela semana numa clínica especializada em atendimento psiquiátrico onde existe uma ala destinada ao tratamento e recuperação de dependentes químicos. Esse meu testemunho causou um impacto psicológico muito forte nos familiares, com muita emoção. A partir daí, iniciou-se o meu despertar de consciência sobre o meu estado de Codependência".
Pensar nos meus sentimentos em
relação a esta jornada, significa reviver emoções fortes e concluir que hoje
enxergo tudo sob uma visão diferente daquela de então. Constatei que não trago
nenhum sentimento de arrependimento do que fiz ou deixei de fazer; que embora a
minha ação possa não ter sido a mais apropriada, foi a que a minha consciência
me indicou como sendo a melhor no momento. A experiência pautada no “melhor
possível” garantiu-me atravessar com serenidade muitos momentos difíceis e
penso que isto contribuiu para ajudar o meu filho, fazendo que ele sentisse a
segurança de não estar sozinho.
Isso, porém não me livrou das
aflições, das ansiedades, dos sofrimentos. Na maioria das vezes o sentimento de
impotência é o que predomina. Penso que não posso fazer nada, que não há o que
fazer, daí vem a aflição e o desespero.
Acho que o pior efeito que já
senti na convivência com a doença do meu filho foi a sensação de traição, de deslealdade. A
mentira e a desfaçatez predominaram muitas e repetidas vezes, provocando-me uma
ansiedade dolorosa impossível de ser descrita. Nada poderia ser mais danoso
para o meu íntimo do que sentir que eu não tinha a mínima importância para o
meu filho, que ele era capaz de me ignorar de uma forma tão cruel; que poderia
simplesmente sair de casa dizendo que iria sair, que voltaria a tal hora, mas
que sumiria e passaria dias sem aparecer, sem nem dar alguma notícia. Que
poderia trocar o nosso convívio fraterno e o conforto de nossa casa, uma cama
limpa e o aconchego do lar, por algo que eu não sabia bem o que era, que não
conseguia entender, mas que incluía a companhia de pessoas marginalizadas, de
maus-hábitos, visadas pela polícia, sem higiene, e casas que mais se comparavam
a pocilgas, sujas e malcheirosas, onde sequer encontrava uma cama digna para
repousar. Algumas vezes, nesses e em outras situações de crise, fui destratado,
recebi ofensas e ameaças, fui humilhado, mas nunca agressões físicas.
Falando de sentimentos,
é impossível descrever como eu me senti ao passar por todas essas situações,
mas fazendo um esforço de imaginação, eu poderia comparar como se eu estivesse
sendo esfaqueado por repetidas vezes, e o alvo não fosse o meu corpo, mas sim o
meu espírito. A dor não é física, mas espiritual, e por isso não existe remédio
que poderia me ajudar, a não ser a centelha divina que todos nós trazemos na
profundidade de nosso ser.
Eu compreendo que na verdade não foi o meu filho que
me causou tantos danos, que na verdade ele me ama, e que nunca quis me
prejudicar ou prejudicar-se. A doença, sim. Esta é avassaladora, e a causadora
de todos os males. E conhecendo-a e unindo-nos, com a benção de Deus poderemos
controlá-la e sair vitoriosos desta nossa jornada.
Só por hoje.


Nenhum comentário:
Postar um comentário