Texto de 25/03/2004, quando a adicção já estava em fase ativa e aguda, e revela o grau da codependência ainda não reconhecida como tal.
Muito provavelmente isto nunca foi lido pelo destinatário direto.
Meu filho;
Já está fazendo quase um mês
que você completou 21 anos! Para eu, que sou seu pai, trata-se de algo meio
assustador. Afinal, há pouco tempo eu também era um adolescente, cheio de
expectativas e projetos, alem de sentir também aquele friozinho de medo que
dava ao pensar que eu tinha que, em pouquíssimo espaço de tempo, assumir minha
própria vida e ser eu mesmo, prover meu próprio sustento e decidir eu mesmo os
meus passos.
Existiram
outras situações na minha vida que provocaram a mesma sensação de expectativa e
de um certo medo, como quando eu me casei e também quando você nasceu, há 21
anos. Sempre bate no pensamento e no coração o peso da responsabilidade que a
gente percebe que está assumindo nestes momentos, coisa que sabemos que não tem
escapatória, é com a gente mesmo e ninguém vai assumir nada disso depois em
nosso lugar. Pelo menos enquanto a gente estiver vivo.
No meu caso
específico, e sendo ainda mais conciso, quando você nasceu, eu senti uma emoção
completamente diferente, pois afinal um novo ser, pequenino, frágil, indefeso e
totalmente dependente dos meus cuidados e da minha responsabilidade, estava
sendo colocado nos meus braços. “Agora é com você! Tome conta e depois eu
voltarei para saber o que você fez dele!”. Lembra-se da parábola dos talentos?
Afinal quem
era esse ser? Logo após a confirmação da gravidez, disse eu certa vez em casa à
sua mãe: “Já não somos mais dois, aqui...” Embora sabedor de que já era uma
personalidade pré-existente e muito provavelmente já conhecido de outras lides
terrestres, brotou na cabeça e no coração a indefinível insegurança de quem
recebe um desconhecido, e neste caso, sem nem mesmo poder conversar, trocar
algumas impressões e assim procurar dar início a um relacionamento que já sabia
previamente que iria ser de longa duração. Eu sentia uma estranha emoção,
mistura de alegria, amor, insegurança, esperança, medo. Será que eu tinha
capacidade para encarar essa empreitada? Certamente que sim, senão essa
situação não seria colocada na minha vida.
Tudo isso é
realmente uma coisa de Deus, não pode existir outra explicação senão como sendo
essas as expressões máximas da manifestação do amor de Deus no planeta Terra: o
amor paternal e o maternal. Só assim poderemos nós, na nossa ignorância,
perceber a magnitude da referencia bíblica de que fomos criados à Sua imagem e
semelhança.
Bem, estou
falando tudo isso apenas para que você perceba um pouquinho o que pode
significar essa missão: ser pai. Quero que você conheça um pouquinho das
emoções que sinto, tanto em relação às expectativas, quanto às alegrias, às
tristezas.
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