sexta-feira, 24 de novembro de 2017

SER PAI!




Texto de 25/03/2004, quando a adicção já estava em fase ativa e aguda, e revela o grau da codependência ainda não reconhecida como tal.
Muito provavelmente isto nunca foi lido pelo destinatário direto.

Meu filho;

Já está fazendo quase um mês que você completou 21 anos! Para eu, que sou seu pai, trata-se de algo meio assustador. Afinal, há pouco tempo eu também era um adolescente, cheio de expectativas e projetos, alem de sentir também aquele friozinho de medo que dava ao pensar que eu tinha que, em pouquíssimo espaço de tempo, assumir minha própria vida e ser eu mesmo, prover meu próprio sustento e decidir eu mesmo os meus passos.
Existiram outras situações na minha vida que provocaram a mesma sensação de expectativa e de um certo medo, como quando eu me casei e também quando você nasceu, há 21 anos. Sempre bate no pensamento e no coração o peso da responsabilidade que a gente percebe que está assumindo nestes momentos, coisa que sabemos que não tem escapatória, é com a gente mesmo e ninguém vai assumir nada disso depois em nosso lugar. Pelo menos enquanto a gente estiver vivo.
No meu caso específico, e sendo ainda mais conciso, quando você nasceu, eu senti uma emoção completamente diferente, pois afinal um novo ser, pequenino, frágil, indefeso e totalmente dependente dos meus cuidados e da minha responsabilidade, estava sendo colocado nos meus braços. “Agora é com você! Tome conta e depois eu voltarei para saber o que você fez dele!”. Lembra-se da parábola dos talentos?
Afinal quem era esse ser? Logo após a confirmação da gravidez, disse eu certa vez em casa à sua mãe: “Já não somos mais dois, aqui...” Embora sabedor de que já era uma personalidade pré-existente e muito provavelmente já conhecido de outras lides terrestres, brotou na cabeça e no coração a indefinível insegurança de quem recebe um desconhecido, e neste caso, sem nem mesmo poder conversar, trocar algumas impressões e assim procurar dar início a um relacionamento que já sabia previamente que iria ser de longa duração. Eu sentia uma estranha emoção, mistura de alegria, amor, insegurança, esperança, medo. Será que eu tinha capacidade para encarar essa empreitada? Certamente que sim, senão essa situação não seria colocada na minha vida.
Tudo isso é realmente uma coisa de Deus, não pode existir outra explicação senão como sendo essas as expressões máximas da manifestação do amor de Deus no planeta Terra: o amor paternal e o maternal. Só assim poderemos nós, na nossa ignorância, perceber a magnitude da referencia bíblica de que fomos criados à Sua imagem e semelhança.
Bem, estou falando tudo isso apenas para que você perceba um pouquinho o que pode significar essa missão: ser pai. Quero que você conheça um pouquinho das emoções que sinto, tanto em relação às expectativas, quanto às alegrias, às tristezas.


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