sábado, 15 de junho de 2002

15/06/2002 - A CARTA

 

Franca, 15 de junho de 2002

 

Meu filho;

 

Sempre quis fazer isso, e hoje, tomado pela emoção viva pelas coisas que aconteceram há pouco, resolvi colocar no papel o desabafo que preciso fazer. Não sei se isso adianta alguma coisa, mas pelo menos dá-me a impressão de que assim você vai me escutar e me entender.

Quem sabe assim eu consiga transmitir tudo o que eu tenho tido vontade de expressar e não tenho conseguido. Conversar com você tudo o que é preciso e que desejo, e transmitir as idéias de forma a lhe dar a conhecer o conteúdo da verdade que nelas existem, transmitindo-lhe assim a minha mensagem de pai, e que de outra forma tem se mostrado totalmente ineficaz. As coisas ditas ao vivo, mescladas com a emoção, as interrupções naturais que existem em um diálogo, as dispersões causadas por gestos ou manuseios de objetos, tudo isso me deixam atrapalhado, quebrando a minha linha de raciocínio da minha idéia original, que termina incompleta e inacabada.

Quero dizer que estou há muito tempo muito machucado emocionalmente, profundamente mesmo. Imagine uma pessoa que foi brutalmente espancada, que tenha que ser hospitalizada por correr risco de vida. É essa a sensação que experimento há muito tempo, a menos de uma diferença fundamental. No caso desse exemplo, a pessoa fica lá no hospital, sente dores e sofre, mas o tempo vai passando, as machucaduras vão se cicatrizando e o tratamento acaba lhe restituindo a disposição física de antes. Para mim, isso não acontece. Passam as horas, os dias, os meses e os anos. Acho que vai passar o que resta da minha vida e essa dor de que sofro, que age todos os dias e todas as noites, jamais vai terminar. Sabe por que? As feridas que se abriram em mim foram no espírito.

Meu filho, a paternidade é uma missão que é confiada a um ser humano e como tudo nesta vida, ela está estritamente relacionada com a lei divina, imutável. Fomos criados à Sua imagem e semelhança e tudo neste planeta é uma cópia imperfeita do que existe nos planos mais elevados. Assim a paternidade também é uma cópia imperfeita da paternidade perfeita, a de Deus. Assim como devemos respeito e amor a Deus, também devemos respeito e amor à paternidade terrena. Somente quando vivemos a paternidade terrena e sofremos  com a falta de respeito de um filho, podemos entender o que significa ofender a Deus, tudo na equivalência do ‘à Sua imagem e semelhança’. Sim, agora sim. Agora podemos afinal entender porque a lei divina nos manda ‘amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo’ e ao mesmo tempo ‘honrar o vosso pai e a vossa mãe’. Como as coisas estão todas interligadas, percebe? Também não poderia ser diferente, senão não seria perfeita a Lei de Deus.

Não sei se minhas palavras vão tocá-lo nos seus mais elevados sentimentos, mas ainda tenho esperança em você, creio em Deus e ainda estou aqui. Quero, portanto, nesta condição de pai, alerta-lo para as nossas responsabilidades mútuas, vindo mesmo diretamente lhe dizer, goste você ou não, que se faz urgente e necessário que esses princípios sejam rigorosamente observados em nossa relação, antes que conseqüências irreparáveis a curto prazo advenham, inviabilizando o nosso projeto espiritual e complicando sobremaneira o nosso futuro. Somos nós mesmos que vamos desempenhar esses papéis e ninguém vai fazer isso por nós. Você deve estar aqui para aprender e eu, com toda a certeza, estou aqui para ajuda-lo. Ajuda-lo a compreender a importância desses valores. Oferecendo minha vida em dedicação à sua criação, ao seu desenvolvimento físico, intelectual e espiritual. E eu, aprendendo a me doar. Ou pelo menos tentando. Percebe como é verdadeira aquela frase? O acaso não existe.

Sou pai, e tenho procurado durante todo o tempo desempenhar minha condição. Sou pai, não sou um deus. Sou humano e sujeito às imperfeições, erros e acertos, como todos. Sou consciente das minhas obrigações como tal, e tudo fiz até hoje no sentido do seu bem-estar, meu filho, sentido esse que extrapola o bem-estar temporal, buscando atingir as finalidades definidas pela lei dos homens e pela lei de Deus.

Procurei lhe dar todas as oportunidades ao meu alcance que colaborassem com o aprimoramento moral e cultural de sua pessoa, enquanto espírito. Sempre fui muito exigente, sim. Não me furtei à obrigação de zelar por sua conduta em casa, na escola, nas suas relações pessoais. Procurei ser o mais vigilante possível, no alerta contra vícios e delinqüência. Consegui, com a graça de Deus, preservar você de caminhos tortuosos e de difícil retorno, orientando, conversando e reprimindo, quando necessário. Sei que nessa caminhada cometi e posso ter cometido muitos erros, mas creia-me que jamais o fiz por negligência ou comodismo. Sempre agi na certeza íntima de estar fazendo o melhor; de estar de acordo com a minha intuição, minha formação e minha boa-vontade. Ainda agora, neste momento de especial turbulência, espero estar agindo certo, e cumprindo a missão que Deus me confiou. Amanhã, quando eu for prestar contas, entre acertos e erros, estarei consciente de que tudo fiz para fazer cumprir o que me foi confiado. Afinal, hoje você está com 19 anos e é um homem jovem, com vigor físico, pronto para encarar a vida. Recebeu educação adequada no seio de sua família, tem um nome digno, tem bagagem cultural e formação religiosa de valor, o que o credencia a ter sucesso na sua vida material e espiritual no decorrer desta sua existência. Agora depende só de você. Até a lei dos homens está muito próxima de lhe outorgar maioridade antecipada, ao entrar em vigor o novo Código Civil, em 11 de janeiro de 2003.

Vou finalizar agora, senão acabo repetindo muita coisa. Mas quero dizer, que ainda continuo aqui, como já te falei varias vezes. Esta é talvez a ultima tentativa. Sinceramente acho que é a ultima coisa que ainda não tinha tentado, ou seja, escrever algo.

Espero de você a partir de agora, vontade de vencer, vontade de colaborar, vontade de respeitar, vontade de acertar, vontade de aqui continuar. Se houver algum desacerto no decorrer do caminho, não hesite em voltar atrás e se retratar. É pedindo perdão que aprendemos a reconhecer que erramos ou que fomos injustos. É assim que apaziguamos o nosso íntimo e zelamos por uma boa relação pessoal qualquer.

Deixo por fim, a seu critério, pensar, refletir e tomar uma decisão definitiva neste sentido. Isso implica em ser honesto consigo mesmo e decidir qual é o caminho que ache melhor.

 

 

Seu pai. (pai e mãe é para sempre)

Nenhum comentário:

Postar um comentário